Del Santos
Romances, contos e crônicas
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Conto Permita-se Crer selecionado para compor o livro Panorama Literário Brasileiro 2011/2012.
Texto: CBJE
"...Ele registra os melhores contos inscritos para as seletivas da CBJE durante o ano, segundo avaliação do Conselho Editorial da CBJE/RJ, considerando sempre - o que é próprio da CBJE - a opinião dos leitores. Este é o terceiro ano consecutivo em que será publicado..."
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Um causo
Água! Nada mais, senão uns goles - disse o sujeito. Bebeu o líquido que lhe fora dado como se fosse poção revigorante. Num tempo transformador, o necessário para lhe mudar o caminho das ideias e o destino. Virou o cantil com satisfação, sentindo-se recompensado acima de qualquer merecimento. Ao terminar, refletiu sentidamente, ergueu as palmas das mãos para cima e olhou aos céus numa espécie de súplica ou agradecimento. Em seguida fez um gesto positivo com a cabeça ao homem que atendera o singelo e inesperado pedido. E este, sem lhe permitir mais falas, ainda lhe deu o suporte – Leve consigo, estas terras são secas demais. - E o indivíduo sorriu levemente e a colocou junto com os pertences e partiu do jeito como surgira para o agradecido. Humildemente.
Mas o homem não lhe deu as costas, correu até ele: Venha, senhor. Mudei de ideia, quero que passe a noite em minha casa, pois o sol já se põe. Salvaste minha vida e será necessário mais que uma simples porção d’água para sentir-me sob a justiça de sua boa ação para comigo.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Permita-se crer
Fernanda não acreditava em Deus, muito menos em milagres. Então, o que fazer após descobrir a leucemia da filha? A estatística lhe dizia que a possibilidade de um doador compatível era de um a cada cem mil e que apesar de as chances aumentarem quanto a um doador familiar, ainda assim estaria na escala da raridade. Tão raro quanto tal doença surgir na menina de apenas quatro anos.
E agora, a quê se apegar? A lógica matemática não afaga nem refrigera, ela pesa na balança do contrapeso. A quem fechar os olhos à noite e a quem clamar quando as circunstâncias fogem do controle? O que fazer quando as mãos estão atadas?
Fernanda nunca concebeu uma força superior regendo a existência. E isso naquele momento a dilacerava por dentro, por não acreditar. E agora também odiava a lógica das possibilidades naturais, que não lhe davam outra opção a não ser esperar, pelo melhor ou pior.
Sua concepção de vida definia-se numa espécie de doutrina em que meios e fins são a engrenagem. Seus sonhos eram calculados, planejados na ponta do lápis e postos em prática em datas marcadas. Dependia somente dela para alcançá-los, tudo era resultado unicamente de seu esforço humano, era o que pensava. A própria gravidez in vitro era uma prova do extremo controle de seus objetivos, da sua personalidade decidida, de sua quase autossuficiência.
Porém, naquele momento, uma sensação de ausência que aparentemente não existia surgiu como um vazio grandioso em sua vida. - “Você ficará bem, filha!” - em sua mente, havia a necessidade de um termo para ratificar o desejo de melhoras da menina, precisava de uma espécie de amém para poder acreditar que era possível. E não eram médicos, remédios ou diagnósticos que lhe trariam tal certeza. Era a fé em algo maior que necessitava brotar.
E passou a noite inteira na poltrona ao lado do leito, onde a filha estava debilitada. Ficou lá, remoendo. Mesmo quando cochilava, ainda assim seus sonhos eram representações daqueles pensamentos. Foi uma madrugada longa, dolorida, um combate interno. Uma enxaqueca horrível a acometeu. Estranhamente podia sentir cada camada de seu cérebro trabalhando, reavaliando, reelaborando e reconstruindo. Estava irrequieta, suada, com coração disparado, quase sem fôlego, ela tremia bastante. Vez outra numa lógica inexplicável de aceitação achava que tudo estava prestes a fazer sentido, mas logo a luz desaparecia num contra-argumento de seu irredutível ceticismo. Até que, ao amanhecer, no auge de seu confronto interno, às seis horas e quinze minutos, assustou-se com o disparo alucinante do aparelho, acusando a ausência de batimentos cardíacos da filha. A sala rapidamente foi invadida.
Médico e enfermeiras começavam a trabalhar incessantemente para não deixar a menina morrer. Tudo acontecia muito rápido. Fernanda fechou os olhos, começou a falar consigo mesma em meia voz - Por favor, por favor! - Suas mãos uniram-se instintivamente em frente ao seu peito e seus joelhos dobraram, ela caiu dizendo em tom forte: Eu creio, eu creio! - Dois minutos passaram na tentativa de reanimar a frágil menina, mas os métodos não surtiam efeito. Uma das enfermeiras virou de costas, saiu de perto do leito e começou a chorar. Uma situação de pânico tomava conta da sala.
Mais de quatro minutos, até que o médico cansado baixou a cabeça enquanto o aparelho insistia em anunciar um som estridente e contínuo.
Todos pararam frustrados, menos a mulher ajoelhada, que repetia com firmeza - Eu creio, eu creio... – E que havia compreendido naquele instante - Não são eles, sou eu. Depende de mim, eu creio! – Todos olhavam para Fernanda que tremia cada vez mais e falava com força nas palavras.
Então, às seis horas e vinte e um minutos, aconteceu. Um flash de milésimos percorreu sua razão e tudo clareou: A filha em seu colo, as brincadeiras ao ar livre embaladas ao som dos pássaros e do vento nas árvores, os raios de sol iluminando a tudo, a beleza estonteante de um entardecer, das noites em que as duas contavam estrelas, dos beijos de bom dia, do olhar puro e verdadeiro da filha correndo em sua direção e dizendo “Eu te amo!”. Fernanda pensou em como pôde ser tão egoísta de não notar, a presença Dele, a resposta estava perto todo o tempo. Eis que ela entendeu, pediu perdão e deixou o infinito e grandioso Amor falar com ela. Fernanda se permitiu crer, e sentiu algo inédito, como se estivesse renascendo definitivamente aos trinta e sete anos de idade, pois escolheu crer. Seus lábios não se continham, sorriam enquanto seus olhos enchiam-se e lavavam seu rosto, era o velho e novo amor de sempre que transbordava, por não caber dentro de suas possibilidades lógicas sentimentais. Era esperança, afago, reconforto, algo indescritível, e numa explosão de fé, Fernanda gritou convicta não apenas palavras, mas puro sentimento: Deus, eu creio!
E de instantâneo, o aparelho alertou um bip, e outro, e mais outro... Aquilo alimentou os esforços, e todos na sala voltaram a agir. E a vida seguiu. Milagres acontecem com maior frequência do que imaginamos.
Naquela manhã, às nove horas, acalmados os nervos, o doutor lhe disse de sua compatibilidade de material medular com a filha. Fernanda chorou novamente, maravilhada pela bondade divina, e o agradeceu. Logo que a criança melhorou, a mãe estava ao seu lado, queria lhe contar sobre alguém muito especial. A menina curiosa, logo perguntou onde Ele morava. Fernanda sorriu, pôs a mão em seu peito e no peito da filha, do lado do coração. – Vive em cada um de nós, querida. Aqui dentro.
Finalmente Fernanda havia entendido que, não conceber Deus, é não ser completo. É negar uma imensa e fundamental parte de si mesmo. E para concebê-lo, basta permitir-se.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Liberdade
Ganhou asas. Pôs-se a voar.
Voou tão alto que o ar ficou rarefeito. Perdeu os sentidos e despencou em queda "livre".
Não soube aproveitar a liberdade.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Palavras certas
Na cama estava Manuel, na beirada Fátima e chegando à porta, Tiago. Sua avó não lhe deu muito tempo, tirou-lhe o fôlego dando a notícia-tarefa: - Vá querido, diga a todos que seu avô faleceu.
Crianças geralmente não veem a profundidade desse tipo de situação, se veem, no dia seguinte é tudo um passado distante e não por maldade não dão muita importância a ele, são seres do presente. Mas Tiago já havia passado outras vezes por esse tormento, alimentado um trauma. Perdera consecutivamente dois irmãos e o pai, e agora o avô. O menino que mal acabara de entrar deu as costas já lagrimando, atordoado. Lembranças de seu convívio com seu Manuel vieram à memória, das visitas que fazia ao velho, geralmente às tardes, e ele sempre o recebia com surpresas. Às vezes, havia lhe comprado guloseimas, outras, arrumavam as tralhas e iam pescar, e o que mais o agradava, quando o avô o convidava a construir brinquedos antigos. Qual garoto neste tempo e desta idade ainda viria a gostar de piões ou de um simples jogo de damas? E realmente não fingia gostar daquelas coisas, de fato lhe agradava tudo aquilo. Coisas alegres que, novamente chegariam ao fim. Tiago começava a compreender o “porém” da vida. Já não podem ser tão inocentes as crianças.
O menino já do lado de fora, sentou-se colocando a cabeça entre os joelhos. Suas lágrimas manchavam a terra batida que logo as absorvia ganhando um tom diferente, reforçado. Ele talvez tenha pensado se com ele seria daquele jeito. Se talvez absorvendo todas suas lágrimas, se as contivesse isso o daria forças para suportar tudo aquilo, aquele sentimento traiçoeiro. De fato foi o que fez. Enxugou o rosto, levantou e, respeitando o mandado de sua avó, foi avisar a todos.
Ele é apenas uma criança para cumprir a tarefa, era o que pensava Dona Fátima. Levantou-se e foi até a porta, mas o garoto já estava sumindo de sua vista.
Em canto algum haverá alguém que possa noticiar tal fato aos interessados sem que os abalem. Aliás, sempre foi duro o momento para os mensageiros. Essa “missão” agora era dever de um menino. Propagar o lamento da morte.
Três casas em uma mesma rua. Uma família típica de cidade pequena. O costume da união familiar, da proximidade. Em cada uma delas um dos filhos com suas respectivas famílias. Pela ordem seu tio Antônio seria o primeiro a saber da perda do pai.
O garoto parou em frente e ficou pensando. Sabia inúmeras maneiras de como não contar o ocorrido, mas nenhuma forma de como dizer. Chegou a falar consigo mesmo: “Existe forma correta para contar da morte?”. E sem muito mais pensar, bateu à porta. Seu tio abriu e Tiago deixou as palavras saírem naturalmente, falou com os olhos marejados mas segurando o choro:
-Tudo o que o vovô tinha para nos ensinar foi ensinado.
A mensagem foi a mais clara que Antônio poderia receber. Passou anos com o pai na oficina de carpintaria, absorvera as técnicas, o corte típico que caracterizava os belos móveis da família. Certa vez Manuel disse ao filho Antônio: Enquanto eu estiver vivo, terei algo para lhe repassar. Você já é um homem, um pai, mas sempre será meu filho, e sempre será meu dever instruí-lo enquanto eu viver. Deus só me permitirá a partida quando não tiver mais nada a acrescentar aqui.
Antônio pôs as mãos no rosto e entrou inconsolado. Tiago visivelmente estava pior. Nesta situação o informante chega a sentir culpa pela dor do receptor. Realmente desagradável. Imaginemos então para uma criança. Mas não poderia esmorecer, ainda não estava no direito. Faltavam duas casas.
Alguns metros e chegaria à porta do tio Damião. Mas uma vez falaria sem planejar? Só o momento esclareceria essa dúvida. A porta estava aberta, Tiago foi entrando e viu seu tio carregando o filho no colo, com poucos dias de nascido. Faltou coragem ao mensageiro para quebrar a alegria de tal cena. Ainda assim o fez:
-O tempo esgotou, sinto muito.
Damião caiu de joelhos. Arrependido, com o filho nos braços. A família inteira esperava pelo dia em que ele pediria desculpas ao pai e os dois fariam as pazes. Damião havia magoado muito a Manuel. Rebeldia de um jovem. Mas agora, Tiago estava certo. Não havia mais tempo.
Tiago ficou alguns segundos observando o homem. Damião estava fragilizado desde o nascimento de seu filho. Isso havia lhe dado à compreensão dos atos do pai para com ele. De certo pretendia deixar o orgulho de lado e pedir desculpas. Tiago sentiu-se aprofundar a tristeza. Crianças com razão não compreendem os adultos. Devem perguntar-se o porquê de praticarmos o autoflagelo.
Restava a última casa. Sua própria. A notícia seria dada a sua mãe. Nenhuma criança quer ver sua mãe chorar. É de partir o coração. Mas agora seria inevitável. E o menino também estava exausto. Não sabia como poucos instantes conseguiram lhe arrancar tanta energia. Ele desejava o fim daqueles instantes.
Tiago deu a volta na casa e foi ao encontro de sua mãe. Sabia que estaria lá. Todas as tardes ela dedicava seu tempo aquele espaço criado com a ajuda do pai. Agora chegara o momento, Tiago não conteve as lágrimas. Começou a chorar e em meio a soluços, disse para Dona Marta:
-Ele vai precisar das flores.
Ela é claro, também chorou, demais, e o abraçou. Os dois no meio de um maravilhoso jardim. Elaborado, construído e com as primeiras mudas plantadas por Manuel. Um lindo presente dado à filha há anos atrás.
-Espero que cuide dessas mudas com carinho, filha.
-Obrigado pai. Eu te amo. Farei isso.
-Mas saiba que, como estou velho, logo precisarei das flores.
Marta o repreendeu a ideia e os dois se abraçaram. Agora, no mesmo jardim, ela abraçava o pequeno mensageiro, que com bom uso das palavras, deu-lhe conhecimento do fato, fazendo-a recordar de tão belo momento.
A tarefa estava completa e o menino necessitava de todo o amparo. Havia mergulhado fundo no mundo adulto e sofrido. Naquele instante queria apenas relembrar o avô, de suas alegrias juntos. Tal missão realizada com tanta simplicidade talvez não pudesse ser feita de maneira mais correta e significativa, com a pureza de uma criança, usando as palavras certas.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
* Espaço para um terror tosco *
PARTE I
A sensação de frio congelante é uma das características da presença do maligno. Aprendi isso por acaso.
***
Naquela noite o ambiente ao meu redor era gélido, eu tremelicava e liberava calor, fazendo surgir em torno de mim pequenas nuvens. Fumaça pela boca.
Sentia um forte zunido nos ouvidos, como uma sintonia de TV, a cabeça parecia prestes a estourar. E aquela voz grave e horripilante me dizia: - EU ESTOU AQUI!
***
Sete minutos antes, exatamente às 23:45 h, estava voltando do trabalho. Hora-extra necessária.
A rua deserta, mal iluminada, meus passos largos e rápidos, quase correndo por impulso do medo.
Tudo muito calmo. Desconfie quando tudo estiver muito calmo.
***
Continuei a caminhada, já há dois quarteirões de casa. Olhava para trás. Ninguém.
Virei e bati de encontro a uma senhora...
- Ajude-nos por favor!
Agarrando-me pelo braço, puxou-me para sua residência. Não tive reação. Tudo muito rápido.
Fomos passando pela sala e corredor enquanto a mulher dizia em tom desesperador:
- Venha, ela está aqui! Faça alguma coisa!
- Ela quem? fazer o que?
- Minha filha, olhe!
Entramos no quarto
Olhei para dentro.
- Não há ninguém aqui minha senhora!
- Olhe para cima!
***
O que avistei me fez exclamar praticamente gritando:
- JESUS!
A garota que rastejava pelo teto caiu em cima da cama.
- Está vendo! Bastou uma palavra! Só você pode ajudá-la!
***
Eu estava imóvel, boquiaberto. Creio que sem melanina nenhuma na face. Pálido! o branco mais branco.
As pernas não obedeciam, os joelhos estalavam, um de encontro ao outro.
Minhas mãos frias, mas suadas, balançando como as de um idoso com mal de Parkinson.
E uma horrível ânsia de vômito.
***
- Vamos! o que vai fazer agora!? Aproveite, esse é o momento!
O pai da moça entrou no quarto.
- Ele pode fazer isso?
- Claro, já está dando resultado, amarre as mãos dela na cabeceira!
Enquanto o pai amarrava as mãos da filha na cama, a mãe enfiou uma bíblia nas minhas e pediu que eu iniciasse.
Foi quando uma voz grave e horripilante disse: - EU ESTOU AQUI!
***
- Faça alguma coisa agora! - dizia-me a mãe.
Por um instante o medo falou mais alto e meu corpo conseguiu destravar-se, tentei virar para a porta, queria correr é claro.
- Não vire de costas! Nunca se vira de costas ou se fecha os olhos para o demônio! disse-me a senhora.
Aprendi mais uma.
***
- Dê imediato virei de volta, agora com os olhos arregalados, quase pulando das órbitas. Imóvel.
- Vamos! o que o senhor vai fazer agora? Diga alguma coisa!
Finalmente falei o que talvez não fosse a frase mais esperada para aquela situação: - DESLIGUE O CONDICIONADOR DE AR!
CONTINUA...
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Contos de Inverno - Antologias da CBJE
Estou com outro conto publicado pela CBJE. Chama-se "Permita-se Crer". O livro será lançado em 20 de Setembro de 2011.
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